sábado, 6 de fevereiro de 2010

Cidade

se perguntas a um menino,
que está na Rio Branco,
onde fica a liberdade
ele irá dizer que está na cidade

vista do alto parece indefesa
vista de perto com tanta beleza
vivida
parece agitada
sentida
é de dar medo

sofrida
auspiciosa para os que têm vontades
promissora para os de carreira
esquecida para quem já vivera
e nunca viverá,
na cidade
que a cada dia que passa,
cresce
muda
renasce
desfalece

Vestibular

Paulo Roberto Parreiras
desapareceu de casa
trajava calças cinza e camisa branca
e tinha dezesseis anos.
Parecia com teu filho,teu irmão,
teu sobrinho,parecia
com o filho do vizinho
mas não era.Era Paulo
Roberto Parreiras
que não passou no vestibular

Recebeu a notícia quinta-feira à tarde,
ficou triste
e sumiu.
De vergonha?De raiva?
Paulo Roberto estudou
dura duramente
durante os últimos meses.
Deixou de lado os discos,
o cinema,
até a namoradinha ficou sem vê-lo.
Nem soube do carnaval.
Se ele fez bem ou mal
não sei:queria
passar no vestibular.
Não passou.Não basta
estudar?

Paulo Roberto Parreira
a quem nunca vi mais gordo,
onde quer que você esteja
fique certo
de que estamos do seu lado.
Sei que isso é muito pouco
para quem estudou tanto
e não foi classificado(pois não há mais
excedentes),mas
é o que lhe posso oferecer:minha palavra
de amigo
desconhecido.
Nessa mesma quinta-feira
em Nova York morreu
um menino de treze anos que tomava entorpecentes.
em S.Paulo,outro garoto
foi preso roubando carros.
E há muitos que somem
ou surgem como cometas ardendo em sangue,nestas noites,
nestas tardes,
nesses dias amargos.

Não sei pra onde você foi
nem o que pretende fazer
nem posso dizer que volte
para casa,
estude(mais?) e tente outra vez.
Não tenho nenhum poder,
nada posso assegurar.
Tudo que posso dizer-lhe
é que a gente não foge
da vida,
é que não adianta fugir.
Nem adianta endoidar.
Tudo o que posso dizer-lhe
é que você tem o direito de estudar.
É justa sua revolta:
seu outro vestibular.

(Ferreira Gullar; propício para o momento)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Dois Cigarros

dois cigarros é tudo que tenho
daqui a pouco não os terei
serão consumidos e esquecidos
assim como momentos que passei

ainda passo, lembrando do fracasso
como a frustração do artista desacreditado
o esquecimento do poeta da geração passada
o sonho de não viver acordado

temo a total ilusão e sentimento
quero sentir somente a crontradição
passar, suprir, acordar
diferente direção, mesmo momento